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Estāo mentindo pra você
Se eu te dissesse que você está exatamente onde deveria estar? Que você já é especialista?
É difícil acreditar quando tāo sempre te falando que você nāo é o suficiente. Quando te dizem que você vai ficar para trás a menos que aceite o novo status quo. Quando parece que todo mundo está tentando te convencer de que precisa aprender a mais nova habilidade em alta, adotar a ferramenta do momento, ou comprar um curso que promete te tornar o especialista que a indústria precisa em apenas algumas semanas. Quando seu trabalho é eliminado porque você não tinha essa suposta expertise.
Eu sei bem como alguém que sabe alguma coisa sobre o síndrome do impostor: é fácil ouvir aquelas vozes, tanto internas quanto externas, que nos dizem que não somos suficientes. Que as pessoas vão descobrir que somos fraudes. Que não fomos feitos pra estar nos espaços que ocupamos.
Mas você já é um especialista.
Sim, você.
Sempre haverá mais pra aprender. Não se trata de agir como se você já soubesse tudo ou como se todo mundo (e eu digo todo mundo) não tivesse algo para te ensinar. É sobre reconhecer seu progresso. Sua dedicação. Sua perspectiva única. Você tem algo a acrescentar à conversa. Suas ideias importam. Sua voz importa.
Você já é um especialista. E você se tornará um especialista ainda maior.
E essa expertise está sendo tirada de você, e depois vendida de volta.
The great roubo já está em andamento
Pra ser claro – sou a favor da tecnologia. E também sou a favor da ética tecnológica e de ser crítico e intencional em relação a tudo que consumimos ou pra qual contribuimos. Isso não é alarmismo. Está bem documentado que as empresas que desenvolvem ferramentas de IA/LLM têm a missão de consumir a expertise mundial e depois se tornarem seu único provedor.
Não sou só eu dizendo isso – eles mesmos nos disseram. Sam Altman (CEO da OpenAI - provedor do ChatGPT) vê um futuro "[...] onde a inteligência é uma utilidade, como eletricidade ou água. E as pessoas compram da [OpenAI], a partir de um medidor."
Essas empresas estão criando uma versão "bico" (trabalhos pontuais) de cada trabalho pra adquirir conhecimentos o mais barato possível e usá-los para treinar seus modelos, transformando essas ferramentas de IA em especialistas em qualquer área.
Então, vamos recapitular.
Você é especialista em uma determinada área.
E essas ferramentas são treinadas usando uma combinação de dados roubados, contratos de bico baratos, e os dados que você alimenta sempre que usa essas ferramentas.
E à medida que nos tornamos cada vez mais dependentes e focados em IA/LLMs, estamos nos deskilling ou desqualificando (ou seja, perdendo nossa expertise) ao depender do conhecimento que nos é repassado por essas ferramentas; pesquisas estão nos mostrando que a IA está destruindo nossas habilidades.
"A dependência de ferramentas de inteligência artificial degrada as capacidades de médicos e engenheiros de software, mostram estudos."
Esse é exatamente o objetivo, como disse Altman. Essas empresas querem roubar nossa expertise até termos que comprar inteligência como compramos eletricidade.
Porque já somos especialistas. E é por isso que estão nos vendendo a narrativa de que temos companheiros de IA na ponta dos dedos pra nos ajudar em qualquer coisa. E por que eles têm tanta pressa pra tirar a expertise de nós e tornar suas ferramentas úteis. E depois tentar vendê-la de volta.
Como reagimos
O que podemos fazer sobre tudo isso?
O músico Adam Neely tem um vídeo fantástico sobre IA, ética e muito mais que recomendo assistir. Nele, ele destaca pensamentos de pessoas como a socióloga Dra. Tressie McMillan Cottom (que também recomendo muito conferir) que buscam oferecer possíveis respostas a essa tecnologia emergente:
- Pra nos proteger (os especialistas), precisamos abraçar a IA para não nos tornarmos obsoletos. Pra sobreviver, precisamos adotar fluxos de trabalho de IA generativa. E precisamos adotá-los agora. Não temos outra opção a não ser simplesmente aceitar.
- Podemos recusar o futuro pós-humano que os oligarcas da tecnologia tentam nos convencer de ser inevitável e o objetivo final da tecnologia.
A Dra. Cottom descreve essa segunda resposta em mais detalhe:
"A proposta para um futuro pós-humano é aquela em que haverá seres humanos [mas] que serão tratados de forma desumana. [...] Recusar é a visão mais esperançosa e expansiva do futuro do que aquela que nos diz que o futuro já está certo e decidido."
Além de "recusar", eu ofereço "desafiar" ou "criticamente questionar" essa visão do futuro. Não apenas desafiar o futuro que nos vendem e as ferramentas que nos são impostas, mas pegar os valores dessas empresas de tecnologia e mudá-los. Como Neely sugere, e se focássemos em valores como:
Serviço
Servir uma comunidade na busca por arte, artesanato, criação, etc. Pra melhorar as coisas.
Paciência
Em contraste com a rapidez e impaciência dessas empresas. Precisamos de paciência, diligência e moderação. O lema do Vale do Silício de "mover rápido e quebrar coisas" está ultrapassado há muito tempo (será que algum dia foi relevante?). Intenção, intuição e paciência diferenciam as criações feitas por humanos dos demais.
Ofício
Dedique-se à busca pelo ofício (o craft). Criar leva tempo. O ofício exige colaborar, trocar conhecimento, e lutar.
Beleza
Os tecnocapitalistas adoram dizer que essas ferramentas permitem que as pessoas se divirtam. Mas depois descrevem a diversão como "a maneira em que obtemos experiências de consumo significativas". Essa é a abordagem mais fria e sem alma. Em vez disso, e se focássemos na beleza? No propósito? Alma? Vida? Conquistas? Colaboração? Alegria e todo tipo de emoção?
Estamos nos tornando dependentes demais dessas tecnologias? Quando enfiamos essas ferramentes em situações onde elas fazem mais mal do que bem, onde não pertencem? Especialmente se isso significar nos desqualificar? E, como um amigo meu descreveu, quando isso significa que você está "auto-arquitetando sua própria destruição"?
Precisamos focar no nosso ofício. O ofício humano. Na nossa expertise.
E devemos ser críticos sobre as formas como consumimos e contribuímos para esses sistemas. Especialmente aqueles que tiveram bilhões e bilhões de dólares investidos neles – em algo projetado pra roubar nossa expertise, depois vendê-la de volta pra nós e usar nosso trabalho pra substituir outras pessoas. Essas empresas admitem abertamente que seus negócios não funcionam sem esse roubo.
Criar de verdade, ser especialista de verdade – esse será o verdadeiro valor que podemos oferecer, mais do que nunca. Abrace e reconheça sua própria expertise, suas habilidades , seu ofício. Você está equipado com paixão e curiosidade, e isso é tudo o que precisa para continuar em frente.
Você é um especialista.
Agora vá continuar aprimorando sua técnica.
🎷Muito obrigado por ler! Tem uma pergunta pra mim? Um tema quente em mente? O que achou desse artigo? Eu adoraria fazer disso uma conversa. Comente abaixo ou escreva para howkind@mateusdasilva.com :-)