This issue is also available in English.
🥳 A How Kind completou 1 mês na última semana. Fiquei muito inspirado com todas as respostas de vocês até agora. Obrigado por estar aqui e fazer parte da conversa <3
Através do espelho (ou da tela do celular)
Sim, tô falando sobre nosso relacionamento com nossos celulares.
Não vá embora. Eu sei que tamos cansados de pensar nisso. Sabemos que é um problema. Sabemos que ficar horas doomscrolling no celular tá nos deixando infelizes. Sabemos que nossa capacidade de prestar atenção está (provavelmente?) permanentemente afetada.
Mas precisamos conversar sobre isso.
E eu sei que você provavelmente tá lendo isso no celular agora. De qualquer jeito, pare de ler por um momento e tire 5 minutos pra ficar em pé e se alongar. Desviando o olhar de todas as telas.
Tudo bem, vou ficar aqui te esperando.
....
Ah, bem-vinde de volta.
Como foi? Como foi tirar 5 minutos pra você? Escolher o que fazer com seu tempo em vez de deixar uma tela ditar isso?
Tenho percebido cada vez mais que o conteúdo do meu celular pode alterar drasticamente meu humor. Para o bem e para o mal.
Se eu olho meu celular de manhã, quando ainda estou acordando, corro um risco com o que estiver lá me esperando pra ver na tela.
Pode ser uma mensagem de amor de um amigo que tava pensando em você. Um parente mandando um meme engraçado. Um e-mail contendo sua newsletter favorita (cofcof).
E também pode ser uma mensagem que te tira do clima. Que te deixa triste. Ansioso. Irritado. Pode ser uma notificação de uma notícia com uma manchete deprimente. Pode ser um e-mail de rejeição do emprego pra o qual você se candidatou.
Ou pior ainda (?), pode haver... nada te esperando quando você checa o celular. Nenhuma mensagem nova. Nenhum e-mail. Nenhuma notificação. E nesse caso, o dispositivo que deveria ser seu portal pro mundo, pra se manter conectado, faz você se sentir sozinho. Ainda mais isolado. Rejeitado.
Tudo o que precisa é do conteúdo certo, e seu dia inteiro tá decidido. Todo o seu humor ditado pelo que seu celular mostra.
Tenho tentado quebrar esse padrão. Tenho definindo horários consistentes e intencionais para checar meu celular.
- Esperar pelo menos uma hora depois de acordar pra pegar no telefone.
- Colocar o telefone em outro quarto pelo resto da manhã, permitindo que eu cheque de novo perto da hora do almoço.
- Posso checar de novo depois do trabalho, como se fosse uma recompensa depois de um dia longo de ser adulto.
- Usar pela última vez pelo menos uma hora antes de dormir. (Nada de ficar doomscrolling sem fim na cama!)
Esse plano é perfeito? Não. Isso significa que eu checo meu celular só 4 vezes cada dia? Pelo menos no momento, não. Mas o que isso faz pra mim é colocar em perspectiva o quão presentes nossos celulares estão em nossas vidas. Como meu celular tem tanto poder sobre mim. Sobre meu bem-estar. Sobre minha presença. Sobre minha vida.
Fomos condicionados a preencher, sem pensar, cada momento ocioso com nossos celulares. Ao longo da próxima semana, tente perceber quantas vezes por dia você pega no celular. Em vez de ficar matando tempo nele enquanto espera na fila do banco, tente olhar ao redor e observar o ambiente.
Estamos cercados pelo nosso povo. Pela nossa comunidade. Mas estamos ocupados demais conectando com nossos telefones.
Estamos sendo bombardeados por estímulos, apresentados ao vivo, em cores, por meio de uma das maiores inovações da história.
Não vou negar os benefícios de ter acesso ao mundo na ponta dos dedos, onde quer que você esteja. Celulares fazem coisas maravilhosas. Celulares nos fornecem momentos maravilhosos em nossas vidas.
Mas não era pra estarmos disponíveis 24 horas por dia, 7 dias por semana. Não querendo dar uma de "ahhh na minha época...", mas talvez alguns de vocês lembram daqueles dias. Brincando com os amigues pelo bairro, seus pais simplesmente confiando que você encontraria o caminho de volta pra casa.
Não fomos feitos pra ficar conectados com o mundo 24 horas por dia, 7 dias por semana. Sim, se conectar é maravilhoso. A internet é maravilhosa. E nos permite nos conectar em uma escala que nem era imaginável pra gerações passadas. E é necessário se quisermos manter contato com pessoas que vivem em outros estados, outros países.
Não devíamos ficar olhando pra uma tela por horas e horas, especialmente na presença de outras pessoas. Comecei a notar isso cada vez mais. Eu ando por aí, e parece que 9 em cada 10 pessoas passam por mim com o pescoço tenso e contorcido de maneiras antinaturais – sem perceber a vida acontecendo ao redor. Vejo cada vez mais motoristas passando mensagem enquanto dirigem. Vejo pessoas reunidas em parques, restaurantes e shows ao vivo, olhando pro vazio infinito das telas de seus celulares. E o vazio olha de volta, te puxando com a promessa de oferecer conteúdo infinito.
Você também tem sentido isso? Aquele desejo insuportável de retomar sua atenção? Libertar-se do controle do seu celular? De qualquer tela? E voltar a focar no tangível, no físico, no analógico? Essas são as coisas que nos ancoram.
Há mais na vida além daqueles poucos centímetros entre seu rosto e seu celular.
Seus olhos vão agradecer. E seu pescoço.
Fazer parte do problema (uma crise existencial)
Como alguém que atua na área de tecnologia, passei anos trabalhando em coisas-que-alguém-vai-consumir-através-de-uma-tela.
Inicialmente, fiquei muito animado em contribuir pra área. Pensar em maneiras novas e divertidas de usar os celulares.
Mas fiquei mais, bem, desiludido ao encarar a realidade de criar em uma sociedade capitalista. Tenho lutado com minha ética pessoal e minhas preocupações sobre o que as experiências tecnológicas que ajudo a criar tão fazendo com as pessoas. Percebi que muito do trabalho que eu tava fazendo era basicamente "como fazer mais pessoas ficarem no nosso app, olhando no celular?". Ou seja, como mantemos as pessoas grudadas na tela por mais tempo?
Sempre que levantei essas preocupações, elas eram ignoradas com pessoas dizendo coisas como "estamos apenas tentando criar mais diversão e conveniência pro usuário" ou "estamos tentando fazer com que as pessoas se envolvam com nosso conteúdo em sessões mais longas" ou "temos que acompanhar a concorrência, e isso significa investir em conteúdo curto, no estilo TikTok/reels".
(Aliás, não é estranho que o conteúdo seja apresentado em algo chamado "feed" -ou seja, alimentação ou alimentar? Quase como se esse conteúdo estivesse sendo forçado pra dentro da nossa boca. Ou como esse conteúdo fosse tão essencial como a comida que nos nutri.)
Então isso tudo é parte da dificuldade que tenho tido com minha relação com o design. A tecnologia das telas é uma parte tão integral do meu trabalho, e sinto que não tenho escolha a não ser me manter atualizado com as tecnologias e os softwares mais recentes e avançados. Caso contrário, como posso fazer design nessa área?
Mas perdi vista do que importa – o design é mais do que as ferramentas que usamos ou a tecnologia com a qual projetamos e pra qual projetamos. Qualquer trabalho, qualquer ofício – é mais do que as ferramentas que usamos. Sua vida é mais do que você faz através de uma tela.
Uma tela é um meio pra um fim. Pra marcar um encontro com um amigo. Pra rir assistindo a um vídeo. Pra olhar pra uma foto que te faz sorrir. Pra ouvir aquela música que te ajuda a processar o luto.
Criar e se conectar é ser humano, estar vivo. E fazemos isso com nossos celulares e outras tecnologias, sim. Mas acredito que devemos reavaliar qual papel eles desempenham em nossas vidas. E quando conseguirmos realmente largá-los por um momento e olhar pra além das nossas telas, veremos que o conteúdo real está ao nosso redor.
Uma extensão do eu individual
Enquanto escrevia esse How Kind, me deparei com uma edição da newsletter da Mule Design intitulada Waves move energy without transporting the matter (Ondas movem energia sem transportar a matéria). Eu absolutamente adoro o trabalho deles, e essa edição apareceu na hora perfeita pro tema de hoje.
Recomendo muito que você leia a edição inteira, mas aqui tão algumas das partes que mais ressoaram comigo, traduzidas por mim:
Todo dia, quando pedalo para o estúdio, vejo motoristas dirigindo com celulares nas mãos e olhos nos celulares e pedestres andando com celulares nas mãos e olhos nos celulares e ciclistas fazendo ligações enquanto pedalam. [...]
Remodelamos o mundo ao redor do [iPhone] e, como ele também parece uma extensão do eu individual, não estamos fazendo um bom trabalho em lidar com os danos sistêmicos.
Tudo o que o carro fez com o ambiente construído, o iPhone fez com nossos quartos e relacionamentos. [...] E da mesma forma, embora existam alternativas, isso não vai desaparecer de repente.
Reorganizamos a sociedade, as economias e as relações trabalhistas ao redor deste dispositivo e seus apps. [...] Está cada vez mais difícil participar de muitos aspectos da sociedade (marcar um encontro pros filhos brincar, pedir comida, entrar em um show, lidar com a conta bancária, etc.) sem um. A maioria dos relacionamentos interpessoais é mediada por isso de uma forma ou de outra.
O ponto principal é que estar online o tempo todo, onde quer que estejamos, não é um estilo de vida, é apenas como vivemos, e a opção de ter menos disso é um luxo agora."
Meio pesado, né?
Eu queria terminar a newsletter de hoje te convidando a refletir sobre seu relacionamento com o celular e como ele pode parecer uma extensão de si mesmo. Quando foi a última vez que você escolheu o que fazer no seu celular? Em vez de ser puxado pelo próprio celular? Quando foi a última vez que você teve a chance de largá-lo por um bom tempo?
Reconheço que nem todo mundo tem o mesmo luxo de desligar as notificações, ficar longe do celular por muito tempo, ou conseguir se conectar consistentemente com outras pessoas por outros meios.
Mas ao examinar como interagimos com as telas ao nosso redor, podemos ser mais intencionais e significativos sobre como estamos gastando nosso tempo precioso nesse mundinho.
☕️ Adoraria ouvir de você – como é o seu relacionamento com o celular? O que você tem feito pra ajustar seus hábitos com ele? Alguma opinião ou dica? Comente abaixo ou mande um e-mail pra howkind@mateusdasilva.com :-)
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🎷Essa foi a edição #6 da How Kind, espalhando gentileza, uma newsletter de cada vez. Aqui você pode encontrar todas as ediçōes.