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Óculos dos pervertidos, vigilância de dados, e o que fazer a respeito de tudo isso
Na semana passada, enquanto jantava com um amigo e conversávamos sobre qual prato pedir, o casal sentado na mesa ao lado - já na meio do seu próprio jantar - nos ouviu e gentilmente nos deu algumas sugestões.
Jogamos conversa fora por alguns minutos até que um deles, um homem de meia-idade, começou a nos contar sobre seu vlog de comida e a recepção positiva que vinha recebendo. Ele vinha avaliando dezenas e dezenas de restaurantes no último ano e compartilhando seus pensamentos com seu público no Facebook.
Antes que eu pudesse responder, ele apontou pros seus óculos e acrescentou mais um comentário - "E eu tenho capturado tudo isso nos meus óculos da Meta".
Ah.
O sorriso caiu do meu rosto e comecei a pensar – ele tá gravando agora? Ele tá gravando toda a nossa conversa? Como que não percebi que eram óculos inteligentes? Ele cobriu a tal "luz de privacidade" piscante que indica quando eles estão ativamente gravando? (Algo que é infelizmente super fácil de fazer com um pequeno acessório.)
E enquanto eu e meu amigo continuávamos nosso jantar e colocávamos o papo em dia sobre coisas mais íntimas, eu não conseguia parar de pensar no cara sentado ao nosso lado. Ele tava gravando tudo? E pensei na mulher com quem ele tava. Ela tava bem com tudo isso? Há quanto tempo ele fazia isso?
Me senti violado. Não me deram opção e eu não sabia quando ou o que ele tava gravando. Eu tava só jantando com um amigo – mas era estranho saber que minha noite possivelmente tava sendo gravada como parte do vlog dele, eu e meu amigo capturados no canto do vídeo dele, postado na internet pra sempre.
Achei que conseguiria facilmente identificar esses smart glasses no mundo real. Mas isso me provou que eles infelizmente acabam ficando muito naturais.
Minha experiência foi relativamente muito suave. Mas o panorama maior é que, como costuma acontecer com a tecnologia, esses óculos estão sendo usados pra prejudicar outras pessoas.
- Garotos adolescentes tão usando eles pra assediar e intimidar meninas na escola.
- Pessoas simplesmente tentando passar pelo expediente de trabalho tão sendo gravadas por essas ameaças de óculos no local de trabalho.
- Os tais pickup artists (que tentam seduzir mulheres e filmar a experiência) e influenciadores masculinos tão assediando mulheres em público, muitas vezes sem que elas percebam que tão sendo gravadas.
- Pessoas estão sendo extorquidas em troca de remover das redes sociais vídeos gravados secretamente.
Pra tornar a coisa ainda mais distópica, a Meta tem adicionado a capacidade de reconhecimento facial aos seus óculos inteligentes - e depois removendo-a silenciosamente, sem esclarecimentos. E só nesse mês, sua patente pra "Smart Cameras with Assistant Systems" (Câmeras Inteligentes com Sistemas Assistentes) foi publicada. A visão da Meta pra essa tecnologia é, citando diretamente da patente e traduzindo pro português:
"[...] acessar dados sensoriais capturados por câmeras, identificar pessoas [...] com base no reconhecimento facial dos dados sensoriais, gerar arquivos de mídia com cada um associado a uma das pessoas ou pelo menos a uma das ações determinadas [...]"
Em outras palavras, esses óculos seriam capazes de identificar quem está no quadro, analisar suas expressões e ações, qual é a relação deles com quem os usa, e gerar clipes que identificam quem está neles. Como esse artigo coloca, também traduzido pro português:
"Por exemplo, o sistema poderia reconhecer pessoas num jantar, detectar risadas e criar uma coleção de clipes. Usado retroativamente, pode ajudar quem o usa a lembrar onde conheceu alguém ou o que aconteceu em um evento anterior."
Ou seja, não estamos prontos pros óculos inteligentes. (Ou, como a internet tem os apelidado, os pervert glasses - óculos dos pervertidos.)
E tudo isso tem me feito pensar de forma mais ampla sobre dados. Existir nesse mundo significa fornecer dados constantemente. Às vezes livremente e conscientemente, sim, mas muitas vezes às cegas.
Esses dados vêm do que postamos nas redes sociais, dos anúncios com que interagimos, do nosso histórico de buscas, de quem mandamos mensagem no celular – mas também de todos os produtos "inteligentes" que você pode ter em casa. Uma geladeira inteligente monitorando seus hábitos de consumo alimentar com sua camera interna, um alto-falante inteligente rastreando sua atividade de comando de voz, um termostato inteligente monitorando sua rotina com base no seu uso, uma campainha inteligente monitorando quem visita e sai de sua casa... Você entendeu.
Pare e pense em quantos dados você fornece diariamente.
Quais dados você está cedendo voluntariamente?
- Como quando seu celular pergunta se você quer permitir que aplicativos rastreem sua atividade em outros aplicativos ou sites pra que possam entregar anúncios personalizados pra você.
- Ou quando você aceita os termos e condições de uma empresa que você definitivamente leu (e que provavelmente dá a ela a liberdade de usar seus dados de maneiras que você não aceitaria se tivessem sido claro sobre isso).
- Ou quando você se sente pressionado a digitar seu telefone pra entrar no programa de fidelidade de um restaurante quando o garçom te traz a conta num tablet e você só quer pagar logo e sair (não que eu saiba como é isso...).
E quanto a aplicativos de rastreamento de hábitos ou relacionados à saúde? Você registra todos os treinos no Strava ou Gymrats, completo com as rotas e com quem você fez? Você tá acompanhando seu estado emocional com um aplicativo de saúde mental? Você tá analisando quantos passos você anda, sua frequência cardíaca, ou quanto de água você toma no celular?
Nem todos os dados são inerentemente maus. Pode ser divertido acompanhar os livros que você leu ou os filmes que assistiu, e comparar com amigues. Pode ser gratificante acompanhar sua jornada de saúde enquanto você treina pra uma maratona. E dependemos de aplicativos de navegação pra nos locomover pelos nossos espaços (se dependemos demais deles e não realmente aprendemos a nos locomover pela cidade, isso é assunto pra outro dia).
O problema é quando esses dados são usados contra nós – o que acontece o tempo todo.
O problema é quando esses dados são a espinha dorsal do estado de vigilância mundial.
Seu celular não tá te ouvindo - você tá sendo rastreado pelo seu rastro digital.
Pra onde você vai. Com quem você se encontra. Qual é a sua posição política. Se você é religioso. Qual medicação você tá tomando.
Os governos tão usando essa informação pra impedir protestos e escolher quem deportar.
Muita gente responde a tudo isso dizendo algo como: "Qual é a alternativa, sair completamente do radar? Eles já têm meus dados, então o que tem pra fazer?"
Mas meu objetivo é te incentivar a pensar mais ativamente sobre os dados que você tá fornecendo – especialmente a pensar duas vezes antes de postar nas redes sociais.
Corretores de dados gerenciam os dados coletados nas suas redes sociais, e anunciantes (ou qualquer pessoa que pague) podem comprar seus dados. É uma mina de ouro pra eles porque seus dados os permitem lhe enviar anúncios personalizados pra fazer você gastar seu dinheiro.
Nós não somos clientes das empresas de redes sociais. Os anunciantes são.
E toda vez que usamos as redes sociais, tamos fazendo trabalho gratuito pra eles – ou seja, fornecendo dados, que eles consomem e que se tornam matéria pros seus anunciantes.
Incentivo você a pensar profundamente sobre como e quando você entrega seus dados. Porque as decisões são tomadas por você com base nos seus dados. Como um empréstimo bancário sendo rapidamente recusado. Ou uma inscrição que não é aprovada. Ou você ter sido pré-desqualificado do seguro de saúde por causa de dados do histórico médico coletados por meio de um teste de DNA que você fez voluntariamente.
Dados são uma ferramenta pra fascistas, e os que mandam sempre vão querer mais – mais poder, mais dinheiro, mais dados. Mas podemos reagir recusando-nos a fornecer tantos dados, especialmente aqueles que entregamos livre e voluntariamente.
Considere mudar pra alternativas analógicas (como fazer pesquisa na biblioteca ao invés do computador, encontrar amigues pessoalmente, acompanhar sua jornada de saúde com um diário físico, etc.). Leia sobre navegadores de internet e provedores de e-mail mais privados. Pesquise maneiras de limitar o rastreamento de atividade nas coisas que você usa.
A forma como reagimos é primeiro percebendo do quanto abrimos mão voluntariamente.
P.S. E aquele cara de óculos inteligentes no meu jantar? Quando ele saiu do restaurante com seu acompanhante, ouvi ele falar alto ao cumprimentar outro homem. O barulho chamou minha atenção pra eles, e ao ver os dois dando um abraço apertado, notei que o outro homem também usava óculos inteligentes – eles ficaram felizes da vida ao ver um colega de óculos.
Se tem algo bom que posso dizer sobre essa tecnologia, acho que é que esses óculos dos pervertidos unem as pessoas.
☕️ Adoraria ouvir de você – como é a sua relação com seus dados? Alguma ideia de tópicos pra edições futuras? Comente abaixo ou mande um e-mail para howkind@mateusdasilva.com :-)
🎷Essa foi a edição #7 da How Kind, espalhando gentileza, uma newsletter de cada vez. Aqui você pode encontrar todas as ediçōes.