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Como construir comunidade (ansiosamente)

No último fim de semana, me veio uma alegria imensa no carro depois que saí de um evento local reunindo pessoas criativas. Não conseguia parar de sorrir enquanto lembrava das pessoas criativas, engraçadas e gentis que conheci naquela noite, e me senti tão feliz, realizado, e orgulhoso por sair da minha zona de conforto.

No caminho pra esse mesmo evento, a história foi diferente. Havia uma guerra dentro do meu corpo.

Eu (talvez como você) tenho ansiedade social / transtorno de ansiedade generalizada. Eu amo conhecer pessoas e me jogar em novas situações. É só que a jornada pra chegar a esse ponto pode ser cansativa.

Entrando no modo "terapia" por um segundo – por causa de comportamentos e traumas que eu carrego, meu cérebro entra em sobrecarga sempre que estou antecipando uma situação desconhecida. Como conhecer pessoas novas. E estar em um espaço desconhecido.

Ao longo dos anos, aprendi a aceitar minha ansiedade porque sei que é só meu corpo tentando me manter seguro. Ele acha que preciso me preparar pra quaisquer riscos potenciais e cenários de luta ou fuga. Então acabo pensando demais em tudo. E temendo seja lá qual for a situação.

Aprendi a reconhecer os sinais e a tranquilizar meu cérebro de que está tudo bem.

Então me consolei de ir ao encontro de pessoas criativas.

E, claro, foi assustador chegar lá e não conhecer uma única pessoa. Mas prometi a mim mesmo que ficaria pelo menos uma hora e faria pelo menos um novo amigue.

O segredo pra mim é fazer isso com medo, pode ser – mas fazer. Basta o primeiro "olá".

Todes naquele evento estavam na mesma situação; estávamos lá pra conhecer novas pessoas. Isso tornou infinitamente mais fácil se aproximar de um estranho, dizer "olá" e começar uma conversa.

E antes que eu percebesse, as coisas começaram a fluir. Eu relaxei. E por isso, meu corpo percebeu que era tudo bem baixar a guarda um pouco mais. Não é necessário lutar ou fugir (no momento).

Duas horas voaram, e eu tinha dito "olá" pra cerca de 10 pessoas. 10 conexões humanas. E o que importa não é se nos tornaremos melhores amigues ou não, ou se nunca mais nos encontramos, mas que, por um breve momento, ocupamos nosso próprio espaço e nos reconhecemos uns aos outros. Estávamos todos lá pra nos divertir, sermos gentis, e esquecer toda a loucura e o desespero do mundo. Por um momento, pudemos nos conectar como humanos e nos sentir parte de algo maior – uma comunidade.

Se a ideia de conhecer pessoas novas e se jogar em situaçōes novas te assusta também, por favor, seja gentil consigo mesmo! E não se esqueça de comemorar quando voltar do outro lado, tendo se aproximado da sua comunidade e feito novas conexões humanas :)

Uma polaroid do autor, emoldurada em um fundo amarelo com um desenho de uma abelha e "Say hello!" no topo, e "Vol. 4" e "July 25th, 2026" na parte inferior. O autor sorri diante de uma parede de tijolos. Uma pintura de um caubói pode ser vista logo atrás dele.
No encontro de pessoas criativas, os organizadores foram super fofos e tiraram polaroids de todo mundo 🤠

Você é a faísca

Apesar de me sentir tão exausto em certos dias por causa do trabalho e de todas as nossas outras responsabilidades a d u l t a s, percebi que a intencionalidade é a chave pra viver. Passar seu tempo com intenção e estar presente enquanto faz isso.

Claro, há momentos em que é saudável desligar o cérebro e não fazer planos. Passar um tempo cuidando de nós mesmos. Mas também é essencial que equilibremos isso com o tempo intencional que passamos com nossas comunidades.

À medida que fui me mudando de lugar e envelhecendo, ficou cada vez mais difícil 1. encontrar comunidade, e 2. mantenha-a.

Vamos desconstruir essa primeira parte.

Encontrar comunidade pra mim tem sido pesquisar encontros locais que envolvem um interesse/uma paixão em comum. Por exemplo, porque queria combinar meu amor pela música com o desejo de ter uma atividade musical mais ativa, acabei entrando num coral secular. Ao aparecer e passar 2 horas por semana com esse grupo, conheci algumas das pessoas mais queridas da minha vida, e fiz alguns dos meus melhores amigues no processo – tudo isso por causa do nosso amor compartilhado pela música.

Mas às vezes a comunidade que você procura ainda não existe de verdade. As peças estão lá – pessoas com os mesmos interesses e o desejo de se conectar em torno desses interesses – mas o que falta é a faísca pra unir todo mundo. E isso pode ser você!

Se você se sentir motivado a começar uma comunidade própria, faça isso. Mesmo que tenha medo. Mesmo se não tiver certeza. Comece com algo simples. Tente encontrar 3 a 5 pessoas interessadas, sejam amigues próximos, amigues em comum ou amigues de amigues. Ao organizar um encontro intencionalmente e comparecer, a comunidade é construída. A parte difícil já está feita. Agora vem a outra parte (igualmente?) difícil – manter essa comunidade.

Como mencionei antes, não sou estranho a ficar exausto depois de um longo dia de trabalho e sentir que não tenho mais energia pra estar presente intencionalmente com os outros. Mas o que percebi é que a comunidade pode (e deve!) nos devolver energia também. Deveria nos preencher, não aumentar essa sensação de exaustão.

Vá no seu próprio ritmo e não se force a comparecer a um evento. Seja ajudando a organizar eventos comunitários ou simplesmente participando como membro dessa comunidade, espero que sinta a alegria de fazer parte de uma comunidade.

Nossas comunidades são tudo. São as pessoas que vão nos apoiar quando a situação apertar. Eles vão nos ajudar a lembrar do que é bom na vida. Eles nos ajudarão a lembrar por que nos apaixonamos por algo no primeiro lugar. E será algo pra nos animar em cada encontro.

O ano de Ludd

Ouviu falar desse movimento analógico que anda por aí? Cada vez mais amigues meus comentam sobre fazer um "detox" das redes sociais, ou tentar transformar seus smart phones em "dumb" phones, ou mudar suas rotinas pra ter momentos dedicados no modo "offline". E eu mesmo tenho sentido vontade de ficar offline cada vez mais.

E vejo cada vez mais pessoas sentindo o mesmo, e eventos se formando em torno desse movimento – incluindo o Verão de Ludd (Summer of Ludd). Ludd, neste caso, sendo abreviação de, claro, Ludditas – o nome que vem de Ned Ludd, o herói popular inglês que inspirou os trabalhadores do século XIX em sua luta contra a industrialização.

O termo ludita voltou a ganhar popularidade na era da IA como um termo pejorativo. Os tecnocratas e defensores da IA a usam pra rotular qualquer um que defenda a segurança, ética e cautela quando se trata dessa tecnologia. Eles afirmam que a IA é o próximo passo sensato na evolução humana e que devemos possibilitar a aceleração extrema do desenvolvimento tecnológico – progresso a qualquer custo. Ir contra isso é cometer um pecado – é ir contra a evolução humana. E por isso eles frequentemente usam termos como luditas pra insultar esses céticos da IA.

Mas muitas pessoas, eu incluso, estão tentando resgatar esse termo como um rótulo positivo pra alguém que simplesmente quer que a tecnologia seja criada, mantida e usada eticamente.

E assim temos essa nova onda de comunidades dedicadas a recuperar nossa atenção, a tirá-la dos nossos smartphones e nossas redes sociais. Eventos como o Summer of Ludd focam em ajudar as pessoas a entender como essas plataformas lucram com elas – com sua atenção, seu estado emocional, suas carteiras, e seus dados – e nos lembrar que existe um mundo melhor e mais significativo longe dessas telas.

Me sinto chamado pra ajudar a organizar esses eventos eu mesmo! Pra contribuir pra comunidade e resistir à ideia de que as redes sociais são a única forma de nos mantermos conectades. (estou pensando em chamar de "O ano de Ludd" ou algo assim hehe)

Há uma citação que ressoa profundamente comigo nesse meu desejo de construir comunidade:

"Love is the most sustaining. To love our communities enough to act, we must hold our attentions to our presence. The many people and living things we cohabitate our regions with, the quiet, gentle, and persistent movement in life."
"O amor é o mais sustentador. Para amar nossas comunidades o suficiente para agir, devemos manter nossa atenção em nossa presença. As muitas pessoas e seres vivos com quem convivemos em nossas regiões, o movimento silencioso, gentil e persistente na vida."*

*Infelizmente, perdi o nome do autor... Por favor, me avise se souber quem escreveu!

O amor é o segredo pra construir comunidade. E por isso é perfeito que "Summer of Ludd" também seja um trocadilho com "Summer of Love" (admito que demorei um pouquinho pra perceber isso...). Nossas comunidades são unidas pelo amor, sustentadas pelo amor, e promovem o amor.

Construimos comunidades pra servir a uma comunidade na busca por conexão, troca de ideias, compartilhamento de lutas, arte, ofício, etc. – feito com bondade, intenção e amor.


☕️ Adoraria saber como você têm encontrado, construído e mantido comunidade. Alguma opinião ou dica? Comente abaixo ou mande um e-mail pra howkind@mateusdasilva.com :-)


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🎷Essa foi a edição #5 da How Kind, espalhando gentileza, uma newsletter de cada vez. Aqui você pode encontrar todas as ediçōes.