Nessa edição: O que há em um sotaque. Por que você deveria se orgulhar do seu. E um belo poema da Arsimmer McCoy.

This issue is also available in English.


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Recentemente recebi essa mensagem:

Como brasileira também, admiro muito suas palestras. Quero me envolver mais com conferências de tech e gravar vídeos, mas tenho vergonha do meu sotaque. Como você se livrou do seu?

Deixando de lado as palavras gentis, é importante dizer logo de cara que nunca me livrei do meu sotaque.

Aqui vai um segredo (não-tão-secreto): todo mundo tem sotaque. Ponto final.

Um sotaque é uma impressão digital auditiva. A impressão digital da voz.

Você carrega dentro de si todas as emoções, todos os aprendizados, todas as experiências, e todas as cicatrizes que viveu. E seu sotaque é só mais uma parte disso.

Seu sotaque é uma bela tapeçaria da sua própria história e daqueles que vieram antes de você.

As formas sutis como você pronuncia certas palavras. O que você acha fácil de dizer. O que sempre te atrapalha. O jeito que seu tom de voz canta. O jeito que você sustenta certas sílabas por mais um instante. As partes que você corta, quase como um sussurro, quase sem dizê-las.

Nossos sotaques são música.

E, claro, eles são projetados através da nossa própria biologia – a forma das nossas bocas, gargantas, línguas.

"Se livrar" de seu sotaque nunca deveria ser o objetivo. Seja falando sua língua nativa ou aprendendo uma nova língua. Você só vai criar expectativas irracionais.

Um sotaque é um sinal de coragem. Se você tá envergonhado de "ter sotaque" ao falar outro idioma, não esqueça:

Você é incrível.

E você tá fazendo o trabalho incrível de pensar em vários idiomas, tentando manter tudo alinhado em tempo real, enquanto as palavras saem da sua boca.

Sei que muitos de nós se identificamos com a personagem Gloria, interpretada por Sofia Vergara, em Modern Family:

Um gif da personagem Gloria, interpretada por Sofia Vergara, em Modern Family. Ela está conversando frustrada com alguém que vemos no canto da imagem. As legendas dizem "Do you know how frustrating it is to have to translate everything in my head before I say it?" ("Você sabe como é frustrante ter que traduzir tudo na minha cabeça antes de eu dizer?")
Um gif da personagem Gloria, interpretada por Sofia Vergara, em Modern Family. Ela está conversando frustrada com alguém que vemos no canto da imagem. As legendas dizem "Do you even know how smart I am in Spanish?" ("Você sabe o quanto eu sou inteligente em espanhol?")

Precisamos ser mais pacientes uns com os outros. Reconhecer o quão incríveis somos todos e como tamos apenas tentando nos comunicar uns com os outros.

Quando entrei na Netflix, uma das primeiras coisas que notei imediatamente foi quantos sotaques diferentes eu ouvia das pessoas ao meu redor. Até hoje, é a empresa mais diversa em que já trabalhei. A Netflix cria conteúdo pra públicos do mundo todo. E a composição dos funcionários refletia isso. Eu ouvia uma bela orquestra de sotaques todos os dias. E esses sotaques eram projetados através do nosso uso compartilhado do inglês.

Eu entendo o significado por trás da pergunta original "como você se livrou do seu sotaque?" Ou seja, como alguém soa mais como um falante nativo, e qual foi minha própria experiência com isso?

Embora minha primeira língua fosse o português, minha família se mudou pros EUA quando eu era muito pequeno. Então, eu mal falava alguma coisa na época. O português é a língua do meu coração e da minha alma, e o inglês é a língua do meu cérebro.

Mas me mudar pros EUA não foi um "código de trapaça" automático pra me ajudar a soar mais como um falante nativo de inglês.

E mesmo quando você faz tudo o que pode pra soar o mais natural possível ao falar um idioma novo pra você – independentemente de você ter ou não sotaque "nativo" – as pessoas nunca ficarão satisfeitas.

Ao longo da minha vida inteira, já vivi variações dessa conversa inúmeras vezes:

  • "Ah, você é brasileiro? Mas seu inglês é tão bom!"
  • "Você não nasceu aqui? Mas você não tem sotaque!"
  • "Ah, você não é daqui? Eu sei, dá pra perceber pelo seu sotaque."
  • "De onde é seu sotaque? Você não parece ser daqui."
  • "Tudo bem, dá pra ver que não é a língua mais natural pra você."
  • "Eu sabia que você era carioca desde o momento que abriu a boca, tá na cara!"

Eu entendo. Na maioria das vezes, esses comentários são inocentes. As pessoas perguntam por curiosidade. Temos uma necessidade inata de categorizar; de colocar os outros dentro da própria visão que eles formam sobre o mundo; de querer se relacionar com os outros e sentir-se mais próximos deles, e parte disso é tentando colocá-los em algum tipo de caixinha.

Eu simplesmente adoro ouvir podcasts ou assistir palestras (de tech ou não), e ouvir um sotaque que não seja o típico "inglês nativo americano". Isso pinta um quadro lindo dessa pessoa. Me faz me chegar mais perto e ouvir ainda mais atentamente.

Se você tem vergonha do seu sotaque (em qualquer idioma) mas quer sair da zona de conforto, gravar conteúdo, subir em palcos, etc. – existem maneiras de se sentir mais confortável falando esse idioma. Acho que a forma de fazer isso não é "quero me livrar do meu sotaque", mas sim "quero soar mais natural falando isso".

E pra isso, você precisa viver e respirar essa língua. Mergulhar em podcasts, rodas de conversa, filmes, música... qualquer coisa que te interesse - nessa língua!

Mas, antes de tudo - tenha orgulho do seu sotaque. Da sua voz.

Tenho orgulho do meu próprio sotaque carioca quando falo português. E da minha própria versão disso, misturada com o fato de ter crescido em um ambiente falando e ouvindo inglês.

Tenho orgulho do meu sotaque americano com toque carioca e Miami-ense. É único e é meu.

Não esqueça que um sotaque tá sempre mudando. Assim como toda língua tá sempre mudando. Assim como nós tamos sempre mudando.

Meu sotaque muda um pouco dependendo de com quem tô ou do que tô fazendo. Quão nervoso ou confortável tô me sentindo.

Meu sotaque é camaleão.

Pense se você se vê sendo rápido demais pra julgar quando ouve alguém falar. Ou se tem dificuldade pra entender alguém falando sua língua, mas com um sotaque que você não tá tão acostumado a ouvir.

Tenha paciência. Peça esclarecimentos. Faça um esforço. Seja empático.

Tamos programados pra fazer suposições sobre nosso mundo. Sobre tudo o que vivemos. Todos que conhecemos.

E sotaques não são diferentes. Fazemos tantas suposições quando ouvimos um sotaque. Existem tantos preconceitos e suposições sociais embutidos em nosso próprio entendimento de um determinado sotaque.

Essa pessoa é burra demais.

Muito caipira.

Muito da cidade.

Muito esperta.

Muito chique.

E isso tem efeitos reais nas pessoas.

Algumas pessoas não são contratadas por causa do sotaque.

Algumas pessoas são ignoradas porque soam "muito estrangeiras".

Não há maneira melhor de encerrar o post de hoje do que com o lindo I Do Got an Accent da poeta Arsimmer McCoy (vencedora do Prêmio de Poesia Marjory Stoneman Douglas 2025-2026).

Tô compartilhando abaixo em íntegra, traduzido por mim – por favor, confira o trabalho completo original dela e a versão em inglês. Infelizmente não consegui manter a formatação original aqui do poema que você vê na imagem abaixo - peço desculpas a Arsimmer!!

Versão em português abaixo

Eu tenho sim um sotaque
A mulher no aeroporto diz
"Você tem sotaque."
ㅤㅤㅤㅤㅤㅤㅤ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ ‎ Eu digo para ela
Isso é só um oceano entre as sílabas.
Isso foi só agosto de 1992
com ventos de 175 milhas por hora
preso nas minhas cordas vocais.
Isso é só o rouquidão da Srta. Anne
quando ela fala atrás de seu Newport
perguntando se minha mãe precisa que sua casa seja limpe hoje.
Minha voz é um freezer de garagem CHEIO de copos de fruta de 0,25

Eu conto histórias com as mãos.
Linguagem que aprendi

em baixo das sombras de árvores
com anciãos
meninos que antes eram negros
que não podiam lavar
o gramado
fora dos dedos deles

Aquele suspiro entre as frases
é
o
balanço da garota crioula
cruzando a 2ª Avenida

É o movimento dos dedos jamaicanos
lubrificando os entre-dreads dos meus dreads

Minha cadência está empilhada
auto-falantes
Junkanoo
e
dominó jogados na mesa

É um peito arfando
na traseira de uma viatura
pego no Back Blues.
Às vezes, fico engasgada
com vapores de gás e poeira de construção
Eu regurgito a I-95 e a US-1
água do pântano repousa na minha língua
me fazendo sussurrar em Mikasuki
um pouco mais alto e assobio
em Mvskoke.

Café cubano inunda as bochechas
deixando um temperamento complicado
nas minhas vogais.
Resíduo de sancocho nos meus lábios
quase me faz esquecer
a política em conflito.
Tem gosto muito parecido com minha tia Souse.
Minha fonética é guiada
pela Escola Bíblica de Férias,
piscinas do parque, e acampamento de verão.
Negociação no estacionamento do Mercado de Pulgas
e sanduíches de costela.
Desenvolvi um "g" duro
vendo Liberty ser destruída.
Meu diálogo é cronometrado no Metrô.

Então, sim, senhora. Eu tenho um "sotaque".

De Dadeland Sul-até Earlington Heights-Eu articulo em Brown Subs-Minha brevidade
vem do lado norte.
Mas eu pronuncio em Polly Mays e Sweet Home,
porque
3 Minha fala vem
3 de vozes sulistas
1 rezando
7 por chuva por mamão e amendoins enquanto
6 acenando para aviões que decolam acima
Então, sim senhora.
Eu tenho sim um "sotaque".

Arsimmer McCoy
Vencedora do Prêmio de Poesia Marjory Stoneman Douglas 2025-2026


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🎷Essa foi a edição #9 da How Kind, espalhando gentileza, uma newsletter de cada vez. Aqui você pode encontrar todas as ediçōes.

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